quarta-feira, 4 de agosto de 2010

A-ha! U-hu! Vou comer seu bolo!


Detesto filme romântico! Fiz a grande besteira de tentar ver um deles hoje. Há alguns meses, precisei dar um tempo da leitura técnica e comecei a ler o "Ele Não Está Tão Afim de Você" para desanuviar a mente. Descobri duas coisas: 1. O livro é horrível; 2. Desanuviar a mente é quase impossível.
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Acho feio isso de tentar fazer receita de bolo para tudo, se nem para fazer bolo, receita serve. Minha avó faz os melhores bolos do mundo e não usa receita, nunca usou, faz o bolo com o que tem. Se não tem margarina, ela usa óleo, se não tem três ovos, ela usa dois, não usa batedeira e sempre dá certo. Por que então usar receita para relacionamento? Logo relacionamento! Existe coisa mais complicada do que isso? Talvez por não usar receita, ela tenha ficado casada por sessenta anos e feliz.
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No filme uma das mocinhas fala sobre os sinais que acontecem no período "pré-relacionamento". Aquela fase mais chata de todas onde não se sabe o que fazer, falar... o frio na barriga e o nó na garganta pioram tudo e buscam-se as receitas. Ela faz leituras ensandecidas sobre o que cada ação do mocinho quer dizer quando, na verdade, não querem dizer nada. Andei pensando sobre esse tipo de comportamento e, infelizmente, hoje ele é meio que preciso, pois temos a necessidade de nos preservar e não nos expor às situações constrangedoras. É assim que nos colocamos a mercê das entrelinhas, do subentendido.
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Psicanaliticamente, poderíamos dizer que este comportamento é produto da nossa vontade mais íntima de querer se relacionar com a influência social de que temos ser sempre superiores em nossas relações. Ou o contrário, nosso desejo mais profundo de sermos superiores com a necessidade social de se relacionar, depende do contexto de cada um - apesar de achar que nossos desejos mais íntimos também são frutos do meio. De qualquer forma, a pergunta é: quem disse isso? Por que temos que ser superiores em tudo?
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O fato de querer relacionar-se não é o foco desta argumentação. Deveria ser uma opção de cada um. As relações de poder que permeiam este envolvimento é que me intrigam. Até onde sei, em um relcionamento são necessários sempre dois (mesmo que sejam duas coisas, não necessariamente seres humanos. Não! Não estou falando de panssexualismo nem, muito menos, de zoofilia! =p). Então questiono, por que o indivíduo se dispõe a entrar num relacionamento se ele não está disposto à partilhar nada?
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Se expor nesse mundo estranho que a gente vive pode não parecer a opção mais esperta, mas, nesse caso (na verdade acredito que em todos os outros também), ser espontâneo não seria uma opção melhor? É mais simples, gasta-se menos energia e tempo. Não vejo sentido em toda aquela menipulação de sentimentos e opiniões para começar uma coisa que está fadada, no minimo, à uma insatisfação porque o "contrato" feito anteriormente entre as partes não pode ser cumprido por falta de autenticidade.
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Mas o que detesto mesmo nesse tipo de filme é o final previsível onde tudo sempre dá certo. Isso sim é ficção, imaginar que tudo sempre acontece como o esperado. Por mais otimista que se precise ser, o bolo às vezes sola e se isso aconteceu, verifique onde errou e tente novamente, mas lembre-se que bolo solado também pode ser gostoso. É só saber aproveitá-lo.
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4 comentários:

Olivia disse...

Oi Marcelinha.
Às vezes me pego pensando nisso e acredito muito que se relacionar com outras pessoas vem de nossa fragilidade, desse sentimento constante de incompletude.
Nessa busca a gente acaba expondo nossas fraquezas e nem todo mundo gosta de se sentir vulnerável. Ainda mais quando não temos certeza ainda se o sentimento é recíproco.
Esses joguinhos é uma forma de testar a reação do outro. Mas nem sempre é legal, pois causamos confusão. Deixamos de fazer algo, de demonstrar sentimentos, de fazer declarações, de ligar quando na verdade desejamos o contrário. Isso tudo me soa bastante estranho.
Na minha opinião, as melhores relações são aquelas em que a expontaneidade e transparência falam mais alto. Não é garantia de sucesso, mas pelo menos as coisas ficam bem claras e a ansiedade é menor.
Sobre receitas de relacionamentos... Todos nós sabemos que não funcionam. Mas eu acho que muitas vezes nós só queremos nos distrair, fugir um pouco da realidade mesmo sabendo que nem sempre é assim. Aliás, quem disse que só contos de fada e comédias românticas têm final feliz? Acho que todas nós merecemos um final feliz. Nem que demore um pouco pra acontecer...
Beijão.

Henrique Fenocchio disse...

Nem sempre o bolo sola porque a gente errou, isso é até uma coisa meio folclórica né? Me lembro de quando criança se afirmar que pra fazer bolo tem que ter "mão boa". Pois é, eu não tenho, pelo menos não tinha, quando fazia solava, aí acabei desistindo. Me dei melhor fazendo pavé, paté, e otras cositas más :)

Marcellinha disse...

vendo por esse lado, não tenho mão boa pra nenhum tipo de bolo, nem o lírico, nem o literal...

dayvid disse...

Ei, minha amiga!

Creio que a comédia faz uma caricatura proposital de nossas angústias. A protagonista é uma metáfora sobre nossa fragilidade frente a solidão e a instintiva necessidade de se fazer aceitar.

Na verdade, queremos ser fortes, mas não somos. Vivemos debaixo de uma pesada armadura, tentando desviar das decepções. Mas isso não nos protege das lágrimas.

A história não tem pretensão de seriedade. Pelo contrário, ri de si e de nós o tempo todo. E o que ela quer dizer converge exatamente com o seu penúltimo parágrafo e com os bolos que sua vó faz: devemos ser espontaneos.

Tô com saudade, um grande beijo e parabéns pelo blog.